Mindset: Respostas cognitivas para um mundo em transformação

Por
Tiago Rodrigo
&
Postado em
1/3/2021

Apesar de ser fruto de um trabalho publicado em 2006, só recentemente o conceito de “mindset” ganhou popularidade no Brasil, mais precisamente em contextos de inovação e aprendizagem. De acordo com sua autora, Carol Dweck, nossa postura em relação às mudanças, desafios e falhas é um indicador importante sobre a possibilidade de crescimento. Por meio de extensas pesquisas científicas realizadas especialmente com crianças, ela identificou duas respostas cognitivas, que chamou de mindset, e seus efeitos ao longo do tempo no desenvolvimento escolar e profissional delas.

A primeira é a crença de que algumas características, como inteligência e habilidades esportivas, por exemplo, são natas e imutáveis – ou você nasce com esses talentos, ou simplesmente não terá chance alguma de tirar boas notas ou se transformar em uma grande jogadora. Quem nunca ouviu frases como: “Não sou bom em Matemática”; “Não tenho afinidade com números”; “Não consigo falar em público”; “Isso não é para mim”; “Não tenho talento para essas coisas”? Classificada como mindset fixo, essa crença fechava um caminho importante a essas crianças, bloqueando seu desenvolvimento a partir desses falsos pressupostos. Ademais, ater-se a eles tornava o treino e a prática inúteis: se as pessoas já nascem com um determinado set de aptidões, que razão haveria para se esforçar em aprender algo que não lhe é inerente?

Por outro lado, crianças que demonstravam curiosidade e persistência frente a novos desafios abriam-se para uma jornada engrandecedora de aprendizado, que as conduzia mais longe e a patamares mais altos.

Embora as pessoas talvez não estejam conscientes de seu próprio mindset, é possível identificá-lo a partir de seu comportamento – particularmente diante de situações em que houve erros ou fracasso: aquelas que possuem mindset fixo encaram os percalços de forma negativa, como se eles colocassem em dúvida suas habilidades; já sob o mindset de crescimento, não há por que temer as falhas, pois elas são encaradas como oportunidades de aprendizado. E esta distinção é fundamental, porque faz com que os indivíduos sob esse mindset continuem se esforçando e se aperfeiçoando, buscando alternativas, a despeito das eventuais dificuldades.

No mindset fixo as crianças se recolhiam para sua zona de conforto: com medo de errar e serem julgadas pelo olhar externo, preferiam repetir aquilo que já dominavam, que tinham certeza de que fariam bem. No de crescimento, errar não era um problema – muito pelo contrário! Do erro é que nasceriam perspectivas e conhecimento adicionais. Pais e educadores têm, portanto, grande responsabilidade em relação ao mindset que fomentam nas crianças. Atitudes como elogiar o resultado de uma ação, em vez do processo em si, transmitem a informação de que o mais importante para eles é a criança ter sucesso em sua empreitada, quando, na verdade, o caminho que conduziu ao sucesso é que deve ser celebrado, pois foi ele que proporcionou o aprendizado. Igualmente, rótulos, ainda que positivos, podem ser prejudiciais, instaurando o mindset fixo e todo o repertório de bloqueios que ele traz, como ansiedade em relação à performance e a tendência a desistir rapidamente. Em seu livro, Dweck afirma que os maiores legados que pais e mães podem deixar a seus filhos são a paixão por desafios, a curiosidade pela descoberta e a postura de dedicação e esforço.

Inovações tecnológicas e perfis profissionais

Foram-se os tempos em que inovações tecnológicas podiam ser amortizadas durante longos períodos de estudo e adaptação. Com a Indústria 4.0 e sua dinâmica de evolução fundamentada principalmente no avanço da inteligência artificial, as mudanças surgem, substituem e são substituídas elas também em espaços muito curtos – frequentemente, poucos meses. Neste aspecto, profissionais com mindset de crescimento tornam-se uma resposta válida e desejável para organizações que precisam fazer frente a essas transformações no mundo dos negócios.

A aprendizagem começa e termina no indivíduo. Empresas podem estimular, oferecer subsídios ou mesmo permitir que seus colaboradores dediquem parte do tempo remunerado em pesquisa/estudo de temas ou ferramentas diferentes daquelas usadas na rotina de trabalho. Contudo, cabe a cada um de nós dedicar esforços e elevar conhecimento e habilidades para além do nosso nível atual de competência e conforto, observando resultados e fazendo eventuais ajustes. Não se trata, porém, de se tornar a maior autoridade do mundo em um determinado tema – essa competição não existe. A postura de crescimento tem a ver com um movimento constante e permanente para criar uma versão melhor de si mesmo a cada dia que passa. E nesse sentido, o próprio cérebro nos favorece: estudos científicos utilizando equipamentos de eletroencefalografias (EEG), mostraram que a atividade cerebral é mais intensa quando buscamos conhecimentos – esse processo ativa novas conexões entre os neurônios.

Tradicionalmente, as pessoas se especializavam em uma única disciplina e, ao longo do tempo, complementavam-na com cursos de extensão ou treinamentos sob demanda – o que caracterizou o famoso perfil em formato de T (a barra vertical da letra representando esse domínio de especialização, e a horizontal, uma gama maior de assuntos sobre os quais se detinha conhecimento e prática mais generalistas). Hoje, considerando as demandas em constante mudança, e até mesmo o leque ampliado de opções de estudo e atuação, o mercado concebe e estimula um novo perfil profissional, um baseado na letra M (imagine uma barra horizontal representando múltiplos interesses, mas nos quais a pessoa detém conhecimentos mais generalista – tal como no formato em T –, mas agora com três barras verticais, em vez de uma, indicando profundidade multidisciplinar). Não raro – e posso dizer isso por experiência própria, tendo estudado: História (graduação), Processamento de Dados (graduação tecnológica), Finanças (pós), Gestão de Empresas (MBA), Marketing Digital (pós), até chegar à Economia Comportamental (MBA), em 2014 – as pessoas estão construindo suas carreiras acadêmica e profissional de maneia não-linear, perpassando diversas áreas do conhecimento, muitas vezes “estranhas” entre si.

Em relatório abordando elementos essenciais para uma trajetória de aprendizagem contínua, a consultoria McKinsey comenta que, quando tentamos algo novo, como começar a trabalhar em uma nova empresa, criamos uma espécie de curva S de aprendizado. A princípio, o progresso desse aprendizado e seu impacto ao negócio são limitados; após um determinado período, contudo, um ponto de inflexão surge, a partir do qual o entendimento, a competência e a confiança aceleram rapidamente e passam a ter impacto relevante no negócio. Essa trajetória segue por mais um tempo, até atingir a parte superior e achatada da curva. Nesse momento, a empolgação e o entusiasmo pela atividade minguam, o aprendizado e o desenvolvimento estagnam e, por fim, as atividades tornam-se parte de uma rotina automática e entediante, em que o impacto nos resultados também passa a declinar. Pessoas engajadas no processo de criação de novas versões de si mesmas não sofrem este problema, pois sempre encontrarão novos caminhos de se desenvolver e dar início a uma nova curva S.

Não se trata apenas de esforço!

A popularidade do trabalho de Carol Dweck também teve um efeito colateral: publicações, escolas e empresas sintetizaram seu estudo de maneira simplista, resumindo o mindset de crescimento ao mero esforço que uma pessoa deve demonstrar em suas atividades. Contudo, essa abordagem é incorreta. Fomentar o mindset de crescimento em crianças, por exemplo, não se limita a incentivá-las a se esforçar; envolve também – e este é talvez o aspecto mais relevante do estudo – identificar essas áreas de desenvolvimento e prover o direcionamento necessário para que elas descubram esses caminhos por si mesmas.

Por fim, vale ressaltar que ninguém é 100% mindset fixo nem 100% mindset de crescimento. Cada um de nós é uma combinação dessas duas respostas, que se manifestam de formas e intensidades diferentes, conforme contexto e situações que vivenciamos. Devemos fazer um exercício de autorreflexão, buscando entender em que momentos a abordagem fixa predomina, por que motivos ela é disparada e como podemos agir para mitigá-la; e assim, nos posicionarmos cada vez mais dentro do mindset de crescimento.

Referências

- Brassey, J., Coates, K., van Dam, N. Seven essential elements to a lifelong learning mind-set. McKinsey report, 2019. Disponível em: https://www.mckinsey.com/business-functions/organization/our-insights/seven-essential-elements-of-a-lifelong-learning-mind-set. Último acesso em 08 de dezembro de 2019.

- Dweck, Carol. Mindset – a nova psicologia do sucesso. Editora Objetiva, 2017.

- Krakovsky, M. When Success sours – public acclaim can distort research applications. Artigo publicado para a Stanford Magazine e disponibilizado em https://medium.com/stanford-magazine/when-success-sours-4079050e9f2c. Último acesso em 08 de dezembro de 2019.

- Krakovsky, M. Why mindset matters. Artigo publicado para a Stanford Magazine e disponibilizado em https://medium.com/stanford-magazine/carol-dweck-mindset-research-eb80831095b5. Último acesso em 08 de dezembro de 2019.

- TED Talk: Carol Dweck, “O poder de acreditar que se pode melhorar” (2014). Disponível em: https://www.ted.com/talks/carol_dweck_the_power_of_believing_that_you_can_improve?language=pt-br. Último acesso em 08 de dezembro de 2019.

Tiago Rodrigo

Entusiasta de frameworks ágeis, Kanban e Trello - mas, acima de tudo, do protagonismo e do encontro de cada um com seu propósito. Economista Comportamental dedicado a esta ciência multidisciplinar na construção de modelos que facilitem e simplifiquem a tomada de decisão em diversos contextos.

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