Comportamento de consumo em tempos de pandemia

Por
Tiago Rodrigo
&
Postado em
1/3/2021


Em quarentena, e saindo o mínimo necessário – nos últimos 10 dias foram uma ida ao supermercado (parte da rotina semanal de repor as frutas de casa) e quatro ou cinco descidas à portaria para retirar delivery de restaurantes e padarias –, me vejo diariamente bombardeado por notícias sobre a evolução do coronavírus mundo afora. Algumas úteis e interessantes; muitas sensacionalistas; e um bocado de fake news – inclusive de fontes que deveriam tratar o assunto com seriedade. 

Nesta fase de incertezas e preocupações, pequenas porções de notícia e informações mal enquadradas acabam sendo interpretadas de forma equivocada pelo nosso cérebro – culpem nosso piloto automático chamado “sistema 1”, que faz associações, inferências e tira conclusões sobre aquilo que está mais saliente, ou seja, “disponível” na memória. 

No início da semana passada, por exemplo, me deparei com uma reportagem no LinkedIn, cuja manchete era: “Não há risco de desabastecimento no país, diz associação da indústria de alimento”. Até aí, tudo bem. Porém, a imagem que a acompanhava era a de um supermercado com todas as suas prateleiras completamente... vazias

Essa divergência entre a manchete e a imagem tem um efeito potencialmente nocivo: embora o texto afirme o contrário, a imagem dispara impressões de escassez nas pessoas, criando um senso de urgência de ir ao mercado e se “prevenir”, comprando – e eventualmente estocando – diversos itens. 

Nestes tempos de fusão dos ambientes real e virtual em que vivemos, e o excesso de estímulos vindos deles, nossa atenção tem sido pulverizada, prendendo-se cada vez menos às informações (pressa de absorver o máximo possível da infinidade que é criada e compartilhada a cada instante), e capturando quantidades cada vez menores de seu conteúdo. Pior: a reflexão e análise crítica que fazemos desse material acaba também prejudicada, tornando-se muitas vezes superficial. Em uma de suas palestras, Leandro Karnal disse que, no passado, as pessoas precisavam praticar durante 18 anos para que pudessem tocar minimamente bem o piano; hoje, basta assistir a um vídeo de dois minutos no YouTube para que a pessoa já se considere especialista no assunto e saia “ensinando” e avaliando outros pianistas. 

Dessa forma, e ao criarmos a impressão de escassez, nosso cérebro acaba impactado e impelido a não “deixar passar a oportunidade” e comprar certos itens “enquanto ainda dá tempo”. E falando de um período de incertezas, no qual os desdobramentos da crise são completamente incertos e imprevisíveis, dado que se trata de um evento sem paralelos na história (as epidemias anteriores tiveram ondas de contágio e formas de combate bastante distintas), qualquer ação que represente alguma “certeza” ou medida que está sob nosso “controle” é vista com uma forma alívio, capaz de amenizar nossa ansiedade. 

Tente se lembrar de algum evento no passado em que você realmente desejava adquirir alguma coisa e, de repente, ela se esgotou. A partir desse momento, e além do arrependimento decorrente dessa constatação, sua vontade – ou melhor, sua necessidade – daquele item aumentou exponencialmente, certo? Isso tem a ver com uma característica que nos é inerente: a aversão à perda. Quando nos damos conta de que algo que desejamos, ainda que sem muita ênfase, se tornou mais escasso, nós multiplicamos o valor que atribuímos a esse item em algo em torno de 1,5 a 2,5 vezes a mais. Esse comportamento é observado tanto em relação a bens de consumo quanto a questões financeiras – vejo o mercado de ações, por exemplo, em que investidores compram ações a preços próximos de sua máxima histórica, não porque efetivamente analisaram os fundamentos da empresa, mas frequentemente porque não querem perder o movimento e desejam lucrar também. O desfecho, no caso das ações, pode ser perdas enormes; no caso atual, e com a estocagem desnecessária de itens e alimentos não-perecíveis, pode ser o próprio desabastecimento das prateleiras – o comportamento decorrente da previsão fazendo com que a própria previsão se realize! 

Outro agravante são as normas sociais e a maneira como elas influenciam nossas decisões e comportamentos. Todos nós fazemos parte de grupos: a família; o de alunos de um determinado curso; colaboradores de uma empresa; profissionais de um segmento de mercado; um grupo religioso; moradores de um bairro ou condomínio, e assim por diante. Em cada um desses grupos existem regras e expectativas implícitas – e sobre as quais não há qualquer tipo de punição, caso descumpridas – que seguimos voluntariamente, a fim de nos identificar com esse grupo e continuar fazendo parte dele. Esses comportamentos reforçam nosso “pertencimento” (somos seres sociais, afinal de contas). Sendo assim, e quando nos deparamos com vizinhos e conhecidos saindo às compras desenfreadamente, somos motivados a fazê-lo também. 

Mas por que o papel higiênico? 

Nesta visita ao supermercado, e já no caixa, observei logo atrás de mim um senhor com cinco fardos de papel higiênico em seu carrinho – entenda-se: 120 rolos e quase meio quilômetro de papel higiênico premium! Curioso, e depois de trocar alguns comentários sobre a nova rotina de trabalho... e de vida!... perguntei por que, dentre tantos itens disponíveis, logo o papel higiênico. Seu Osvaldo devolveu uma pergunta: “E se cortam a água? Já cortaram a luz durante um tempo, no passado”. 

O ponto de vista é interessante, na medida em que explica preocupações adjacentes das pessoas sobre a manutenção de serviços básicos (notícias afirmam que a internet brasileira, por exemplo, pode ser sobrecarregada em breve, devido à nova quantidade de acessos domésticos e a banda utilizada) e a falta de confiança nos governantes. A discrepância de discurso entre as esferas estadual e federal adiciona incerteza e desconfiança a este cenário. 

Neste contexto, o papel higiênico acaba associado a uma espécie de serviço essencial – e melhor: estocável, cuja disponibilidade pode ser garantida pelo indivíduo sem o risco de deterioração e que, cedo ou tarde, será usado. Essas propriedades contribuem para aliviar parte de nossa ansiedade e reduzir as incertezas de um contexto inédito e potencialmente caótico – lavar as mãos, por exemplo, embora seja uma ação praticamente ao alcance de todos e com grande eficácia na prevenção do contágio, é algo que parece abstrato frente à dimensão do problema: um vírus invisível a olho nu, que viajou milhares de quilômetros até chegar ao Brasil e que pode ser contraído por qualquer indivíduo sem que se tenha uma ideia precisa de suas consequências. 

Mas e agora? 

As recomendações da Organização Mundial da Saúde, reforçadas por grande parte dos Estados brasileiros, orientam sobre a necessidade de redução do contato social, a fim de controlar a disseminação do vírus. Ainda que as previsões de algumas autoridades sejam de que uma parcela grande da população brasileira contraia o covid-19, o ponto principal do distanciamento social é evitar que essa grande parcela se contamine ao mesmo tempo, extrapolando as capacidades de atendimento médico do país. 

Dessa forma, evitemos a movimentação não essencial – sim, podemos ir ao supermercado, à farmácia e outros locais essenciais, mas de forma breve, tentando otimizar essas saídas – a fim de que a curva de disseminação se achate. Essa é a recomendação oficial dos especialistas em saúde e infectologia, no Brasil e no mundo. E, quando no mercado, siga seu padrão de consumo normal, sem estocagem desnecessária (e, neste momento, injustificável) de produtos, inclusive os não-perecíveis. Assim, contribuímos individualmente para que não haja escassez e para que pessoas mais vulneráveis tenham a oportunidade de continuar abastecidas. 

#FiqueEmCasa 

Tiago Rodrigo

Entusiasta de frameworks ágeis, Kanban e Trello - mas, acima de tudo, do protagonismo e do encontro de cada um com seu propósito. Economista Comportamental dedicado a esta ciência multidisciplinar na construção de modelos que facilitem e simplifiquem a tomada de decisão em diversos contextos.

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