Ambientes de trabalho tóxicos e por que é tão difícil deixá-los

Por
Tiago Rodrigo
&
Postado em
13/11/2019

Quando falamos de ambientes de trabalho perigosos, o que geralmente nos vem em mente: minas de carvão? Corpo de bombeiros? Pesca comercial? Trabalhos em galerias de esgoto?

Mas e o escritório corporativo “tradicional”?

Estudos científicos já comprovaram que jornadas de trabalho muito longas, falta de períodos de descanso, pressão extrema por resultados e competição desenfreada são fatores que refletem diretamente na saúde emocional e psicológica dos trabalhadores, causando diversas doenças e até mesmo morte.

Em seu livro “Morrendo por um salário” – lançado em português em outubro deste ano –, Jeffrey Pfeffer, especialista em comportamento organizacional e Professor da Universidade de Stanford desde 1979, traz uma extensa discussão sobre as implicações de ambientes de trabalho e práticas de gestão tóxicas à saúde e ao bem-estar das pessoas. Seu trabalho correlaciona esses fatores a ataques cardíacos, diabetes, depressão, problemas neurológicos, abuso de substâncias como álcool, cigarro e drogas, além de comportamentos agressivos e suicídios.

Hoje, o estresse ocupacional custa ao governo dos Estados Unidos cerca de US$ 300 bilhões por ano e é responsável por aproximadamente 120.000 falecimentos – o que o torna a 5ª maior causa de mortes no país. Esses dados são alarmantes: imersos em uma cultura que enfatiza a “alta performance”, de gente conectada 24h por dia e sempre disponível, as empresas não se dão conta de que esses paradigmas, na verdade, estão adoecendo as pessoas. Segundo um estudo realizado com milhares de trabalhadores em diferentes segmentos de mercado, um aumento de 10% na quantidade de horas trabalhadas em uma semana não aumentou a produtividade; muito pelo contrário: ele foi responsável por uma queda de 2,4%!

E essa é talvez a constatação mais triste: mesmo que as organizações de todos os tipos permitam e, em alguns casos até incentivem, práticas de gestão que literalmente adoecem e matam colaboradores, esses mesmos empregadores também sofrem porque ambientes e práticas de gestão tóxicas não aumentam sua rentabilidade ou sua performance. Empresas insalubres – na ótica psicológica e emocional –  na verdade diminuem o engajamento das pessoas, aumentam o turnover e reduzem performance, além de fazer disparar os custos dos planos de saúde e seguros de vida. É uma clara situação de perde-perde.

Ao longo do texto, Pfeffer traz diversos exemplos sobre as consequências desse problema:

- um funcionário da loja de departamentos americana Sears recebeu um e-mail às 7h da noite, na véspera de Natal. Ele respondeu à mensagem no dia seguinte (Natal!), 8h da manhã. Logo em seguida, um dos executivos da empresa, que estava copiado na conversa, mandou outra mensagem, perguntando por que ele havia demorado tanto tempo para responder e tomar uma providência;
- entre 2008 e 2010, 46 funcionários da France Telecom cometeram suicídio em razão das reorganizações propostas na empresa;
- Moritz Erhardt, estagiário da unidade londrina do banco de investimentos Merril Lynch, morreu após trabalhar 72h seguidas. Ele tinha apenas 21 anos;
- entre 2007 e 2009, cerca de 200.000 fazendeiros indianos se suicidaram por conta de dívidas e problemas econômicos que os afligiram duramente em meio à crise;
- entre 1992 e 2010, nos EUA, houve quase 14.000 vítimas de homicídio em ambientes de trabalho;
- em um escritório de engenharia no Japão, Kenji Hamada trabalhou 75h por semana durante 6 semanas seguidas, sem descanso, sem folgas. Além disso, ele levava 2h para chegar ao trabalho. Ao final desse período, Hamada teve um ataque cardíaco e morreu.

Esses casos todos têm alguns pontos em comum: trabalho excessivo, muito acima do padrão; falta de descanso, caracterizado pela ausência de folgas e períodos muito curtos de sono entre um dia e outro; desequilíbrio nas relações sociais e familiares devido ao estresse, à pressão e à jornada de trabalho.

No Japão, existe até um termo que define morte por excesso de trabalho: karoshi. Reportado pela primeira vez em 1969, foi só em 2012 que passou a ser reconhecido como uma situação de risco, resultando em 812 indenizações a familiares; em 2015, esse número subiu para 2.310; e mais recentemente estima-se que o número de japoneses que morrem em decorrência da sobrecarga de trabalho esteja próximo dos 10.000 por ano – praticamente o mesmo número de vítimas de acidentes de trânsito no país.

Na China, chão de fábrica de componentes eletrônicos que abastecem diversas empresas tech amadas mundo afora e onde as condições competitivas são absolutamente brutais, a morte pelo excesso de trabalho também recebeu um substantivo exclusivo: gulaosi. Segundo dados do China Youth Daily, cerca de 1.600 pessoas morrem todos os dias, completamente esgotadas pelo trabalho – número que totaliza assombrosos 584.000 indivíduos por ano.

Os 10 principais fatores que afetam saúde e longevidade

Dentre os principais problemas apontados, encabeçam a lista:

1.     Estar desempregado;

2.     Não ter plano de saúde

Por conta das incertezas e preocupações que trazem, eles estreitam o foco de atenção das pessoas que, por esta mesma razão, acabam muitas vezes presas em uma espiral de pensamentos que as impede de tomar melhores decisões e encontrar novos caminhos.

Na sequência, vêm:

  1. Trabalho por turnos, principalmente quando eles se estendem por 10 ou mais horas;
  2. Excesso de trabalho, caracterizado por jornadas semanais superiores a 44h;
  3. Instabilidade, ou seja, quando o trabalhador teme cortes

De acordo com estudos realizados na Coreia do Sul, a instabilidade no trabalho é tão nociva à saúde quanto o consumo de cigarros. A lista segue então com:

  1. Conflitos trabalho-família / família-trabalho;
  2. Ter relativamente pouco controle sobre as atividades e o ambiente de trabalho, incluindo falta de autonomia;
  3. Alta demanda de trabalho e pressão sobre prazos;
  4. Estar em um ambiente com baixos níveis de suporte social (relacionamento próximo com colegas de trabalho, por exemplo); e
  5. Trabalhar em um contexto em que decisões sobre atividades e oportunidades pareçam injustas

Bob Chapman, que fala sobre lideranças verdadeiras, alerta: “A pessoa para quem você se reporta no trabalho é mais importante para sua saúde do que o médico da família”.

Por que é tão difícil sair?

Boa parte das pessoas entende perfeitamente que está inserida em ambientes tóxicos. Dessa forma, por que é tão difícil sair?

Em primeiro lugar, podemos mencionar a inércia, também chamada de viés do status quo. As pessoas têm a tendência natural de permanecer onde estão, mesmo cientes de que pode haver algo melhor lá fora. Porém, para isso é necessário sair do estado atual, promover mudanças, vivenciar situações de, literalmente, desconforto.

Procurar um novo emprego é algo que demanda muita energia – aliás, procurar um novo emprego é por si só uma espécie de emprego, que compreende várias etapas: pesquisar vagas, acessar o site da empresa, procurar notícias a respeito dela, preencher formulários, atualizar o CV, fazer testes online, agendar entrevista. Ademais, alguns processos envolvem dinâmicas, business cases, enfim. O que acontece: o ambiente de trabalho tóxico muitas vezes drena toda a energia que a pessoa possui ao longo do dia, de forma que ela se sente tão estressada, pressionada e ansiosa por sair, que acaba ficando paralisada. Não consegue dar os próximos passos. Se você está se sentindo esgotado, não tem dormido direito e ainda tem inúmeras preocupações sobre o trabalho atual, com que estado mental e psicológico você vai fazer uma entrevista em um novo emprego? É um desafio gigantesco.

Outro ponto são as normas sociais. Todos nós pertencemos a grupos específicos: colegas de trabalho, vizinhos de um condomínio, frequentadores de uma igreja, apreciadores de literatura russa, torcedores de um time etc. Algumas empresas, como a Amazon, que o Pfeffer cita nominalmente no livro, praticam um discurso de que seu ambiente de trabalho é de fato “desafiador”, “duro”, e que somente as pessoas realmente fortes, comprometidas, diferenciadas conseguem sobreviver nele. Isso gera uma carga psicológica enorme, e você começa a questionar sua saída e a si mesmo: será que esse ambiente na verdade é ok, mas eu é que sou fraco? Eu é que não sou bom o bastante? Ninguém gosta de ser visto como uma pessoa que desiste das coisas – ninguém gosta de pensar sobre si mesmo como alguém que desiste das coisas.

Inúmeros entrevistados comentaram que seus amigos diziam: “Uau! Você tem um emprego naquela empresa incrível! Você realmente atingiu um patamar diferente” etc. Nesse contexto, pedir demissão – “desistir” – torna-se muito difícil, porque é uma decisão que vai contra as expectativas desses grupos sociais aos quais você pertence. Como é que você vai explicar para esses amigos e parentes que aquele emprego sensacional, na verdade, está te deixando doente?

A terceira razão é o nosso cérebro límbico, nosso sistema 1, o piloto automático que rege nossas ações do dia a dia. Nós temos uma capacidade incrível de racionalizar as coisas: “Ah não é tão ruim assim”, “É só por um tempo determinado”, “É por uma boa causa, estou trabalhando num problema que vai ajudar a humanidade”. Nós vamos criando dezenas de desculpas para tudo na vida. E uma vez que escolhemos uma profissão e uma empresa, e nos vimos inseridos em um ambiente onde todos estão sujeitos às mesmas insanidades e, aparentemente, estão tolerando tudo, nós criamos essa narrativa mental que nos identifica a esse lugar e torna muito difícil tomar a decisão de sair – mesmo conscientes de que estamos nos sentindo mal, que estamos tomando medicações, que nossas relações com esposa, marido, filhos, amigos está péssima.

O que fazer, então?

Somos influenciados pelos outros (normas sociais). A primeira dica que o Pfeffer dá é que você procure pessoas que não morrem por um salário, pessoas que sabem balancear e equilibrar melhor esses binômios trabalho-família, trabalho-lazer. Não estamos falando daquelas que têm fotografias da família inteira espalhadas pela mesa de trabalho, mas que são turistas dentro de casa. Estamos falando das que realmente se comprometem com filhos, cônjuges, amigos. Construa relações com essas pessoas e tente entender seu estilo de vida. Elas podem servir como fonte de informações e influência para que você inicie sua mudança.

Segundo: reconheça, mas não sucumba aos apelos do ego “Será que eu não sou bom o bastante?” Admita que quando você escolhe uma profissão ou empresa para a qual vai trabalhar, sua decisão está sujeita a erros como qualquer outra. O cérebro humano é naturalmente enviesado. Perceba o erro e tome as ações necessárias para corrigi-lo.

Terceiro, e conforme relatos das pessoas que participaram de entrevistas com o Pfeffer, mesmo que você tenha tomada a difícil decisão de dar o fora daquela empresa tóxica, os efeitos de um ambiente de trabalho tóxico não desaparecem imediatamente. Por algum tempo, esses resíduos voltarão à tona para te incomodar. E esse é um processo natural de superação.

Por fim, e talvez mais importante, tenha em mente que ao avaliar um emprego novo, aspectos como saúde e bem-estar devem ser considerados. Trabalho não é só dinheiro, e mesmo uma montanha de dinheiro não é suficiente para reparar os estragos de um ambiente negativo.

Referências:

- KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar – duas formas de pensar. São Paulo: Editora Objetiva, 2012.

- PFEFFER, Jeffrey. Morrendo por um salário – como as práticas modernas de gerenciamento prejudicam a saúde dos trabalhadores e o desempenho da Empresa. E o que podemos fazer a respeito. 1ª edição. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.

Tiago Rodrigo

Entusiasta de frameworks ágeis, Kanban e Trello - mas, acima de tudo, do protagonismo e do encontro de cada um com seu propósito. Economista Comportamental dedicado a esta ciência multidisciplinar na construção de modelos que facilitem e simplifiquem a tomada de decisão em diversos contextos.

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